Da varanda da pousada, que dá vista para boa parte da cidade, do Mercado e de Serrano, também se vêem as lavadeiras na beira do rio, que vão colorindo suas margens conforme vão estendendo as roupas pra coarar ao sol.
O nome da serra que emoldura a cidade de Lençóis, Serrano, vem do fato de que os garimpeiros que iam chegando e montando suas barracas brancas ao longo do leito do rio, onde garimpavam, vinham das serras de Minas Gerais. Aliás, foram essas barracas que também deram origem ao nome da cidade, que como hoje ficam as roupas coloridas no sol, as barracas pareciam milhares de lençóis espalhados pela pedra (melhor assim, se fosse hoje, o nome poderia ser Camisetas, Calças, ou até pior, Cuecas).
Bom, era dia de descanso, e apesar de Lençóis comportar a grande maioria das operadoras de turismo da Chapada, já havíamos visto muita coisa, então decidimos fazer um descanso ativo à pé mesmo, conhecendo Serrano e alguma cachoeira por ali.
Lençóis é a típica cidade turística baiana, onde se explora mais o turista do que o turismo. Fomos subindo pelo lageado de Serrano e a todo momento crianças se ofereçem como guia. O segredo, se você ficar na dúvida quanto ao caminho – que foi o nosso caso – é comprar uma água com algum dos vendedores ambulantes que ficam por ali, e assuntar os caminhos. Seguimos, assim, pra Cachoeirinha, tomando banho pelo caminho e passando por um mirante, que coincide com o final da trilha de quem vem, à pé, de Capão.
A cachoeira é até gostosa, mas pela proximidade com a cidade e facilidade de acesso, até em baixa temporada é um programa dispensável. Pelo menos pra quem está acostumado com cachoeiras, essa não tem nenhuma atração a mais, a não ser um pequeno poço, compartilhado na base do bom senso, com os demais turistas, que se não levam a farofa, deixam na água enormes poças de óleo bronzeador ou protetor solar.
Ainda visitamos o curioso salão de areia, local de onde, antigamente, eram extraídas as areias multicoloridas para a confecção de artesanato, aquelas garrafinhas com desenhos de paisagens, não muito raras pelo nordeste do país (trouxemos uma, a menor delas, ossos de quem viaja com a bagagem tão limitada). O local de extração atual não é divulgado tão facilmente, e na verdade nem tentamos descobrir.
Na volta, passamos por outro caminho, uma trilha que leva ao outro lado da cidade, passando por hotéis mais, digamos, luxuosos, e pelo novo prédio da prefeitura, em construção.
Voltamos pra pousada sem pressa alguma, admirando a belíssima e eclética arquitetura, entrando em lojinhas e sorveterias. E se você, como eu, pensava que os hippies estavam extintos da terra, prepare-se pra encontrar vários deles por ali. Ignore ou seja ignorante. Funciona.
Fomos pra pousada pra tomar uma ducha e voltar à “vida Isaura” pra lavar umas roupas. As bikes, apesar do sofrimento dos dias anteriores, estavam limpas. Nada que uma escovada à seco com um pouquinho de óleo não resolvesse. Se você, como nós, chegou por trilha, não se esqueça de conferir as rodas. É bem provável que elas estejam empenadas. Felizmente não era o nosso caso.
Lençóis é, inclusive, o melhor lugar para uma boa conferida na bike. Ali, você pode resolver aquele freio pegando ou de repente até trocar um pneu rasgado, já que ali existe uma oficina que, apesar de recursos obviamente limitados, conta com a experiência do Kennedy, acostumado a dar manutenção nas bikes dos locais e até dos gringos que andam por ali. É ele, inclusive, que dá manutenção (e ocasionalmente até faz serviços de guia) nas bicicletas do pessoal da Brasil by Bike, a única operadora de cicloturismo da região.
O calor era grande, saímos pra dar outra volta pela cidade. Aproveitamos e jantamos mais cedo, com o sol ainda no céu. Como o Peter, amigo meu aqui de Belo Horizonte e integrante do PL Bikers, de Pedro Leopoldo já havia me falado da oficina do Kennedy, demos uma chegada lá pra conhecer o cara, trocar umas idéias e pegarmos alguma dica (e pra repor um parafuso do porta-caramanhola que eu havia pego pra substituir um outro perdido, que prendia a garupa ao quadro da bike).
O Kennedy é realmente um cara muito gente boa, cheio de histórias pra contar, e entre elas, nos deu a dica de chegarmos em Andaraí – nosso próximo destino – passando por Marimbus, considerado o pantanal baiano.
Montamos um roteiro e ele ficou de conversar com o pessoal da Brasil by Bike sobre essa viabilidade.
Depois disso, voltamos à pousada pra fazer uma mudança: o Bágio havia nos acolhido em um quarto com a promessa de mudarmos no outro dia. É que a diária desse era um pouco mais elevada, e como não fazíamos questão de televisão nem frigobar, passaríamos pra outro mais simples. Com algumas opções, escolhemos um no andar superior da casa, recém reformado – a pousada é nova, mas esse cômodo havia se transformado em quarto recentemente, já que o Bágio acabara de se mudar com a família para uma casa independente – com quatro ou cinco janelas e uma vista espetacular.
Dando uma longa volta pela cidade, paramos na frente de uma pizzaria, e em homenagem a uma grande – e sumida – amiga, entramos. O lugar se chama Na Tora Produções – um dos chavões da moça – e serve uma famosa pizza artesanal. Tomamos uma cerva e fomos embora.






