27/out/2008 – Lençóis

Hora de continuarmos a viagem. Bikes prontas, ainda ficamos um bom tempo conversando com uma alemã, que, acostumada a fazer cicloviagens pela europa, se mostrou bastante interessada na nossa aventura. Segundo ela, à pé é muito lento e de carro é muito rápido. O ritmo da bicicleta é o ritmo que eu gosto, disse ela.

Explicamos que existem alguns roteiros cicloturistas já tradicionais no Brasil, como a Estrada Real, o Caminho da Fé ou o Circuito do Vale Europeu , mas que uma viagem como a nossa era ainda mais complicada para estrangeiros, já que devido à falta de sinalização e estrutura, é preciso buscar informações a todo momento, o que às vezes se torna difícil até pros nativos da língua.

Nos preocupava muito a possibilidade de darmos de cara com um incêndio no caminho, como teria acontecido no Bomba, se estivéssemos dois dias atrasados,ou na Serra do Sobradinho, na região do Morrão, se estivéssemos dois dias adiantados. Sendo assim, antes de seguirmos viagem, achamos prudente darmos uma passada no Apoio dos brigadistas, pra nos informar da real situação e avisar que estávamos entrando naquela região. Assim, se houvesse algum incidente, eles saberiam da nossa existência e nos procurariam.

Ficamos algum tempo ali, conversando e confirmando os próximos caminhos. Sabíamos que atravessaríamos áreas com queimadas recentes, mas que tudo estava sob controle.

Seguimos então por maravilhosas trilhas, cercados por deslumbrantes paisagens e rios com ainda mais adjetivos, passando pela casa do Gatão (depois de entrar à direita em frente à Pousada Verde e virar a segunda à esquerda – a primeira te levará a uma comunidade –, mantenha sempre à direita até ficar de frente ao Morrão, atravessando a val de um riacho. Se pegar uma trilha à esquerda e descer até uma cerca de arame farpado, volte), pelo (lado direito do) Morrão, e finalmente pela Águas Claras, um rio com vários poços para banho e também um ótimo local para camping (se for o caso, mantenha sua barraca afastada das margens pra não correr o risco de ser levado por uma eventual tromba d’água). Dali pra frente, o single tem alguns trechos técnicos, muito bons pra quem já estava com saudades de um belo passeio de bike.

A caminho do Morrão

A caminho do Morrão

Sempre-viva comum na região do cipó. Foi a única que vimos por aqui. Lá atrás, a região do Capão e da Cachoeira da Fumaça

Sempre-viva comum na região do cipó. Foi a única que vimos por aqui.

Lá atrás, a região do Capão e da Cachoeira da Fumaça

Lá atrás, a região do Capão e da Cachoeira da Fumaça

img_0989-copy

img_0997
Existem três opções de trilha em pontos diferentes. Que já fique claro de uma vez que, se estiver de bike, em hipótese alguma você pegará o caminho da direita, que te levará ao mesmo lugar, porém por trechos exclusivos de andarilhos. Suas opções são direita ou reto (sendo que a direita é reto e reto é a esquerda. Entendeu? Não? Então faça assim: não entre no vale entre a Serra de Sobradinho e a Serra do Lapão, o resto é, digamos assim, tranqüilo).

img_1000

Águas Claras

Águas Claras

Aqui o banho é obrigatório

Aqui o mergulho é obrigatório

A princípio queríamos passar pelo caminho da esquerda, atravessando o Rio Lençóis duas vezes e passando mais ao pé da Serra da Bacia, já que teoricamente este seria o caminho mais batido. Acontece que perdemos essa entrada, e quando nos demos conta, estávamos no outro single, que descia reto até o rio. Com medo de ser o caminho errado, deixei a bike ali e desci à pé, correndo, a fim de verificar a passagem: era por ali mesmo, já que atravessando o rio, a trilha entrava para a esquerda e contornando o morro por fora, sem a possibilidade de entrarmos no vale.

Em pouco tempo já estávamos do outro lado, atravessando por um single aberto recentemente pelas chamas. Ainda dava pra sentir o calor do ambiente, aquele mormaço que vem de baixo, e por cima e de lado, chicotadas da vegetação desnuda. Já víamos o Pai Inácio e os caminhões passando à nossa frente, alguns quilômetros dali, o que significava que estávamos definitivamente no caminho certo, porém, ajudados por uma trajédia: se o mato ali não tivesse queimado, transpor aquilo tudo seria um sacrifício bem maior.

Passando por um trecho recém-queimado

Passando por um trecho recém-queimado

Braços pretos de carvão

Braços pretos de carvão

Conferindo o caminho com o Morro do Pai Inácio à esquerda

Conferindo o caminho com o Morro do Pai Inácio à esquerda

Chegar no Ponem (uma fazenda abandonada, nossa próxima referência) não foi tão fácil assim, já que, apesar de perto, havia muito espinho no caminho, e o cansaço e a fome já eram consideráveis. Até pensamos em pernoitar ali, mas teoricamente estávamos perto de Lençóis, e dormir em um lugar desconhecido perto de uma rodovia não era muito animador.

Entramos em mais um single, de pedras, bem técnico, hora subindo hora descendo, e fomos em frente.

Apesar de bastante técnico (tomei dois belos tombos por excesso de confiança), o caminho era muito bonito, mas o sol já começava a descer, e isso me preocupava um pouco, principalmente porque a entrada da Garganta de Pedra (um corredor de pedra no alto da serra que nos levaria ao outro lado) não foi tão óbvia assim e perdemos bons minutos pra chegarmos lá em cima.

Transposta a Garganta, segundo o mapa, havia um downhill até Lençóis, e aproveitando os últimos raios de sol, desci, confesso que meio inconseqüente, já que na penumbra, alguns obstáculos não são notados, principalmente em uma velocidade maior. Por outro lado, quanto mais rápido se anda, menos se cai. Essa é a física da bicicleta, e preferi usá-la ao meu favor.

Andei por alguns minutos até que a escuridão tomasse conta da paisagem, quando parei pra esperar a Flavinha e olhar em volta. Mais uma vez eu tive vontade de pernoitar ali, mas pior do que o Ponem, ali não havia água e nem terra, apenas pedra. O melhor a fazer era ligar as lanternas e seguir com cuidado, andando até onde desse, em Lençóis ou em Barro Branco, uma pequena vila que cismava em não dar as caras.

Convencido que finalmente estávamos na maior roubada da viajem, fomos andando até que encontrássemos um lugar mais apropriado pra descansar. Eis que de repente, estávamos em uma estrada, e eu disse pra Flavinha: “Vambora nessa estrada, seja lá pra onde ela estiver indo”. Pedalamos um pouco e vimos casas. Fomos chamando, batendo palmas, até que em uma delas apareceu um morador. A estrada nos levaria a Lençóis, e faltavam poucos quilômetros até lá.

Não sabíamos dessa estrada de terra e nunca fiquei tão feliz em encontrar uma. Paramos em uma ponte de concreto e ali, sob a luz da lua, fizemos um merecido lanche, tomando toda a água e chupando todas as laranjas que tínhamos. O famoso downhill de Lençóis era, então, uma estrada, que nos levaria sem esforço ao destino.

Ponem

Ponem

O começo do single de pedras

O começo do single de pedras

Chegamos na cidade passando por um cemitério bem interessante, onde se lê a seguinte frase: “Ontem éramos o que tu és. Amanhã serás o que somos”. E é esse o sentido da nossa viagem, vivermos enquanto vivemos.

Pela primeira vez deixamos a pousada pra depois, já que estávamos imundos, mas o interior precisava mais de um refresco do que o exterior. Tomamos umas três cervejas na companhia de uma outra alemã, que também havia vindo do Capão naquele dia, à pé. A amiga, com a qual conversamos antes de sairmos do Capão, chegaria mais tarde, de ônibus (talvez porque a velocidade dos ônibus se assemelhem à das bicicletas, naquele enorme trânsito de carretas, vai saber).

Agora aliviados, fomos atrás de mais uma dica certeira do Sapucaia, a pousada Lavramor, do Bágio, que foi ao mesmo tempo funcionário e amigo, e nos deu instantaneamente, o conforto de sermos hóspedes e também amigos, num ambiente simples e muito confortável, com ventilador e área externa – com direito a ducha e quintal com grama.

Nessa noite, jantamos um acarajé ao lado do mercado e um peixe, num desses restaurantes com mesas na rua.
______________________________________

km do dia – 37 km
_____________________________________________

Pousada Pé no Mato – R$ 60,00 (existem várias opções de hospedagem, de quartos comunitários a chalés). Café da manhã farto e variado. Ventilador e chuveiro à gás. Possui lavanderia e espaço para lavar e guardar as bikes.

Uma resposta para “27/out/2008 – Lençóis”

  1. João Victor Disse:

    Muito legal o seu diário de viagem! Apesar de ainda não ter lido tudo, já tive uma boa idéia de como vai ser, pois pretendo fazer o mesmo percurso em fevereiro/março. Estou super empolgado, estou começando a me preparar!!

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s


Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.