Hoje acordamos, se não com pressa, com ânsia de pegar a estrada. Aconselhados pelo Sapucaia e pela Sílvia, já esperávamos esse trecho: a Estrada do Garimpo, transponível apenas por jipes traçados, motos e bicicletas. 38 km de areia, raízes e mata fechada nos esperavam pela frente, e com promessas de muita roubada. Chegaríamos então em Andaraí, e de lá, outro trecho clássico nos levaria a Xique-xique do Igatu.
Quanto mais cedo saíssemos, menos penoso seria o dia. Assim fizemos, e em pouco tempo estávamos no Ribeirão de Baixo, um rio raso – pelo menos nessa época do ano – facilmente transponível.
Seguimos rápido e em pouco tempo chegamos no primeiro obstáculo. Sabíamos que aquele banco de areia não seria o pior de todos, mas como o sol ainda se escondia por trás das nuvens (contávamos com isso, a julgar pelos últimos dias), empurramos as bikes por mais ou menos um quilômetro, ainda com energia de sobra.
Pneu furado, pneu remendado, fomos seguindo, hora rápidos, hora dançando na areia “até onde der”, hora empurrando “quando não dava mais”, atravessando rios sossegados e rios assoreados pelo antigo garimpo. O caminho parecia mais fácil do que pensávamos, e em menos de duas horas chegamos na Fazenda Roncador.
A Fazenda Roncador é um oásis: um grande leito de rio com um enorme poço. As cachoeiras do Samuel e Sonrisal ficam mais acima, mas preferimos não procurar por elas, nos contentando com um revigorante banho no poço acima das primeiras pedras.
Nesse ponto, enquanto nadávamos, surge um guia com um turista alemão, que aparentando ter uns 60 anos, entrou na água sem qualquer cerimônia enquanto gritava como uma criança: – “Paradiso! Esto é paradiso!”
Ficamos ali, quietos, dentro daquele poço no meio de dunas, pensando que estava ali, na nossa frente, o verdadeiro espírito da Chapada Diamantina. Ali, adultos viram crianças e brincam, acreditando que agora sim, o céu pode cair sobre suas cabeças, pois é apreciando a imponente Serra do Sincorá ou nadando em um poço d’água gelada e transparente que se encontram as coisas simples e verdadeiras da vida.



Rio Roncador

Rio Roncador
Sorrimos, trocamos algumas palavras e seguimos. Pouco à frente, a sede da fazenda. Um casarão centenário, onde alguns rapazes tomam conta. Ali, pode-se ficar hospedado, dormir e almoçar (para combinar com antecedência, ligue pro 75 9966-9120 ), e se tivéssemos tempo, seria ali, com certeza, nosso próximo pouso.
Tomamos uma cerveja pra refrescar e seguimos por uma estrada de terra firme, avistando as águas de Marimbus ao longe. De repente, páro a bicicleta. Era época de caju, e eu estava embaixo de um pé carregado deles. Rapidamente já estava do outro lado da cerca, colhendo todos ao alcance e apedrejando mais alguns, até pegar um bom punhado. Pouco depois, estávamos às margens do Rio Garapa, o último rio que atravessaríamos, e o começo do grande banco de areia.


Marimbus, o pantanal baiano

Pausa pro lanche
A gente tinha uma dica preciosa, garimpada de conversas com guias que íamos encontrando pelo caminho: para fugir do grande banco de areia à frente, havia uma trilha à direita, logo depois do Garapa. Não foi difícil encontrar o local, já que seguindo os vários rastros de bikes e motos na areia, a entrada fica muito bem marcada. Nesse ponto, é bom passar em silêncio e com bastante atenção, já que há várias caixas de abelha por ali.

Rio Garapa. Com tanta areia, nada de enfiar sua bike na água, combinado?
Logo chegamos em uma estrada de terra, e subindo um pouco por entre uma vegetação de serrado surgida “do nada”, nos levou ao asfalto.

A poucos quilômetros de Andaraí
A estrada está em boas condições, e devido ao pouco movimento até dá pra dar uma abusada na velocidade, apesar de não haver acostamento.
Ainda não tínhamos certeza de como iríamos pra Feira, então queríamos passar na “rodoviária” pra conferir as possibilidades. Fomos pedir informações e a resposta foi essa: “pergunte onde fica a sorveteria Apolo, é lá o ponto de ônibus. Aproveitem pra experimentar um sorvete de rapadura”.
Perfeito. Lubrificamos as correntes secas pela areia e fomos à procura da tal sorveteria, uma casa pré-colonial onde ficam alguns passageiros esperando o ônibus e alguns famintos como nós. Pedimos logo umas coxinhas de frango, e como sobremesa, sorvete de tapioca, rapadura, tamarindo, caju…

Chegando em Andaraí
Um tempo depois, chega o ônibus. Pegamos os horários (o guichê só abre enquanto o latão está na área) e começamos a nos preparar pra seguir viagem, já que o sol forte já começava a perder força.
Assuntando com o pessoal de lá sobre a possibilidade de irmos ao Poço Azul (o Poço Encantado está interditado pelo IBAMA), nos deram o telefone do Tarcísio, um motorista local. Combinamos que ele nos pegaria às 8 da manhã, em Igatu.
Sabíamos que haviam duas opções pra se chegar em Igatu: por uma trilha ou por uma estrada. Alguns quilômetros à frente, por asfalto, passamos pela Toca do Morcego e pela Cachoeira Donana no Rio Paraguaçu, e dois quilômetros depois disso, chegamos na bifurcação pra Xique-xique do Igatu, onde se pega uma estrada de calçamento com trechos antigos e outros mais novos, mas muito bem conservados. É uma estrada muito bonita (e só não nos foi mais devido a um foco de incêndio na margem direita. Chegamos a parar em um ponto, observando um helicóptero do IBAMA que sobrevoava o local) e de uma subida só, do começo ao fim, aliviando em determinados momentos, mas com dois tops que fizeram meus joelhos doerem pra puxar todo aquele peso morro acima. Foram 7 quilômetros ao todo, e gastamos cerca de uma hora no percurso.



Chegando em Igatu, uma cena já comum, mas nem por isso, desoladora: um enorme foco de incêndio em um dos cruzeiros da cidade, ainda na estrada, dessa vez do lado esquerdo. Paramos pra dar notícias “lá de baixo” pros brigadistas e seguimos em frente.
Xique-xique do Igatu é uma cidade mágica, tombada pelo Patrimônio Histórico Nacional, e que devido às suas casas de pedra, a maioria em ruínas, leva a fama de ser a “Machu Pichu” tupiniquim. Durante o auge do ciclo do diamante, no século XIX, abrigou milhares de garimpeiros, que construíam suas casas de pedra ao longo de uma trilha que nos leva de volta à Andaraí. Pouca coisa sobrou dessas construções, já que depois de abandonadas, muitas casas foram demolidas, pois estavam sobre os últimos terrenos ainda não garimpados.
Tínhamos a Pousada Pedras de Igatu como referência. Havíamos encontrado com seu dono, um francês – que, inclusive, nos ofereceu carona – em Andaraí, mas como preferíamos ficar em uma pousada mais barata, fomos direto no Bar Igatu, onde conhecemos “seu” Guina, que nos indicou a Pousada da Conceição, filha de Dona Lita, que nos recebeu muito bem e nos arranjou um bom quarto e um tanque pra lavarmos algumas peças de roupa.
Ainda dava tempo de encomendar o jantar, e depois de uma bela sopa – e de longos papos com outros hóspedes e com o Chiquinho, um guia local que também trabalha em um bar e toma conta das casas da região – voltamos ao Bar Igatu pra conhecer melhor o simpático Guina e saber mais sobre a cidade.
Ficamos algum tempo ali, assentados numa mesa na calçada, eu, Flavinha e “seu” Guina, que nos contou várias histórias passadas e recentes, como a d’O Besouro, um filme que usara a cidade como locação dias atrás.
Já tivéramos notícias desse filme em Mucugê. Nos disseram, inclusive, que a cidade estava lotada pela equipe, e que não havia nem hospedagem e nem mesmo restaurante dissponíveis. Felizmente, quando chegamos, apenas a equipe de “desprodução” estava por ali, repintando as casas e reinstalando os fios de eletricidade, retirados por exigência do filme. O Besouro era o assunto da cidade, e todos e se mostravam orgulhosos com os recentes turistas, acontecimento tão diferente numa cidade de pouco mais de 200 habitantes.
De repente “seu” Guina olha no relógio de pulso: – “Já passa de meia noite, preciso fechar”. Nos entreolhamos e dissemos: – “Tudo bem, seu Guina, mas são dez e poucos.”

“seu” Guina no Bar Igatu
Antes de sairmos, convidamos seu Guina pra ir na gruta conosco no outro dia. Voltaríamos cedo e ele conhecia o Tarcísio. Além do mais, há muito tempo atrás, seu Guina trabalhou na fazenda onde fica a gruta, e naquela época ninguém sonhava com a existência dela.
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Km do dia: 47 km
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